Viagem em 2021: o ano de microtendências de turismo

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Muita gente acha que apontar tendências sempre incluiu um pouco de chutômetro. Concordo, ainda que pareça um tiro no meu pé, jornalista de viagem. Explico. Conversar com gente por dentro do turismo no Brasil e no mundo dá embasamento para farejar o novo. Isso é claro e não se discute. É um pré-requisito da nossa profissão, chamado no jargão jornalístico de apuração. Costuma ser (quase) infalível para saber o que já aconteceu. Mas apontar tendências exige antevisão, uma certa capacidade de antecipação dos fatos. Aí, das duas, uma: ou a fonte da informação é gente de fato muito antenada com o assunto; ou quem dá a notícia tem tranquilidade para trabalhar o tema em minúcia.

A previsão de tendências tem um inimigo forte: o tempo. Quando ele passa devagar demais, as coisas não mudam na velocidade do apetite dos viajantes por novidades. Quando enlouquece porque tudo muda tão rapidamente – caso do que ocorreu depois que o coronavírus resolveu parar o mundo –, é quase impossível saber o acontecimento seguinte. Neste momento, por exemplo, não é indicado viajar no Brasil; estamos no epicentro da pandemia. Mas podemos ficar quietinhos pensando em ideias para o futuro.

Ainda em 2020, numa das primeiras reportagens que fiz sobre tendência de viagens pós-pandemia ouvi um monte de gente boa, o que resultou em pistas do que vinha ocorrendo no turismo brasileiro antes da escalada atual da covid-19. Sobre previsões neste ano, para mim, a melhor definição é a de Jaqueline Gil, fundadora da Amplia Mundo, consultoria especializada em inovação e planejamento de cenários futuros em turismo e hospitalidade: “2021 é certamente o ano das microtendências, aquelas que se conformam pelas mudanças constantes nas decisões e preferências do consumidor e fazem do futuro algo de curto prazo, de menos complexidade”.

Vão aqui algumas microtendências apontadas por Jaqueline para 2021, para você refletir e considerar quando a situação da covid-19 melhorar no país:

Viagens para praias sem planejar com antecedência

Entre as preferências nacionais sempre estiveram viagens para a praia no Brasil, e isso não deve mudar. No entanto, mesmo esse tipo de turismo só pode ser decidido no curtíssimo prazo. “Praias e áreas verdes protegidas, além de cidades pequenas e comunidades tradicionais, com experiências relacionadas à busca pelo autêntico, ao conhecimento de algo novo, à gastronomia local, ao descanso e ao bem-estar devem despontar”, disse Jaqueline, também pesquisadora do Laboratório de Estudos de Turismo e Sustentabilidade da Universidade de Brasília (Lets/UNB).

Escapadas ao ar livre perto de casa

De acordo com ela, a busca pela natureza perto de casa segue em alta – veja algumas ideias de passeio perto de São Paulo nessa reportagem que fiz com dicas de destinos a até 150 quilômetros de distância da capital paulista. Mas, atenção, sempre verifique a situação da covid-19 nas cidades brasileiras; atualmente, por exemplo, o Estado de São Paulo está com restrição máxima e você não deve viajar

Repeteco do que foi bom, com adaptações

De acordo com ela, em 2021 os viajantes buscam menos ter experiências inesquecíveis e mais repetir algo que agradou. “Exemplo: fazer o Caminho de Santiago de Compostela pode deixar de ser uma possibilidade de experiência inesquecível em 2021. Então, pode ser substituído por várias trilhas inspiracionais em locais de fácil acesso, com bons serviços no entorno e que ofereçam segurança física e médico-sanitária.”

Luxo é o novo turismo de experiência

“O luxo pode ser experimentado, porque de certa forma se desconectou do conceito de ser algo caro, exclusivo, inacessível, para uma indulgência, um ‘pequeno luxo’ para quebrar a rotina”, explicou a especialista em tendências. Ela deu como exemplo: a ida a um spa para um fim de semana de descanso, sem a necessidade de planejar com antecedência, em vez de uma viagem programada à França, com hospedagem em palácios ou castelos adaptados.

Busca pelo autêntico, com foco nas pessoas

Jaqueline apontou que as viagens podem ter como foco as pessoas e a chance de entrar em contato com algo imaterial conectado a tradições e histórias, ainda que criado recentemente. “A busca pelo autêntico, por meio de experiências que ofereçam laços claros com o local, a cultura tradicional e suas histórias genuínas. Nesses casos, há um distanciamento de serviços pasteurizados, comprados em catálogos de agências, por exemplo”, disse. “A recompensa é acessar locais não antes conhecidos, que revelem histórias excepcionais e conexões verdadeiramente autênticas.”

Como ficam turismo de nicho e viagens internacionais

Oferecem essa possibilidade as experiências de nicho, como cicloturismo, viagens só para mulheres, visita a aldeias na Amazônia e afroturismo. Entretanto, para a especialista, elas devem atrair uma parcela pequena dos turistas. “Acredito que a motivação de viagens pela busca por experiências segue forte como tendência. Não acredito, porém, que nichos muito específicos prevalecem”, afirmou Jaqueline.

E os roteiros internacionais? “Viagens ao exterior ainda não devem estar entre as preferências majoritárias dos brasileiros, principalmente pelas incertezas econômicas, incluindo desvalorização do Real, disponibilidade de malha aérea e medidas sanitárias impostas por muitos países.”

Acomodação em hotéis com menos quartos, turismo de luxo em alta no Brasil, aluguel de imóvel para alternar trabalho remoto com folga… São tantas as microtendências simultâneas. Mas sabe o que é melhor? Nós, viajantes, fazemos as tendências viajarem do plano das previsões para a realidade.

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