Turismo imunizante: destinos e agências apostam na vacina para atrair turistas

Portugal se prepara para ser um dos principais destinos turísticos da Europa, após um fim de semana recorde em vacinação (foram 129 mil doses aplicadas no sábado, acima da meta de 100 mil por dia). Além do esforço de imunização, o país se beneficia de um processo de reabertura do Reino Unido para o turismo – e os britânicos não receberam a notícia de forma passiva. Só nessa segunda (17), foram confirmados 17 voos com 5,5 mil turistas do páis em direção à região portuguesa de Algarve, conhecida pelas belas praias e clima ensolarado.

Acontece que alguns viajantes buscam ir além de uma escapada: agências de viagem – e até governos – oferecem também a vacina para quem estiver interessado em curtir os hotéis, praias e museus de seus destinos. Para economias que dependem do turismo, a medida pode ser uma forma segura de voltar ao normal a tempo da temporada, embora o resultado prático da inoculação demore em geral duas semanas para fazer efeito.

O governo das Maldivas é o principal exemplo desse movimento. A regra para entrada de turistas no país é considerada branda: basta apenas apresentar um teste PCR negativo realizado com até 72 horas de antecedência. O Ministério do Turismo prevê até vacinar visitantes na chegada ao país asiático. A estratégia é apelidada “3V” (“visitar, vacinar e viajar”), mas não tem data para acontecer. Não estranhe o objetivo ousado: afinal, o intuito do governo local é receber 1,5 milhões de turistas em 2021.

O país oriental põs em prática desde fevereiro um plano de imunização igualitária chamado “Covid-19 Dhifaau” (“Defesa contra a Covid-19”) com apoio da ONU e países vizinhos. O programa já resulta em cerca de 26% da população completamente imunizada, segundo dados da plataforma Our World in Data, e inclui até mesmo trabalhadores estrangeiros sem documentação.

Indo a pairagens menos paradisíacas, postos de vacinação em seis estações de Nova York, incluindo a icônica Grand Central em Manhattan, vem atendendo turistas saídos do aeroporto JFK com doses do imunizante Johnson & Johnson este mês. O plano, além de atender turistas, é persuadir a população relutante da cidade a se vacinar, oferecendo uma soluçao conveninete e o bônus de uma viagem grátis de metrô.

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, propôs no último dia 6 um programa no qual vans estacionadas em pontos turísticos da cidade ofereceriam doses da Johnson & Johnson a visitantes entre as 12 e 20h. Os locais sugeridos incluem o Empire State Building, a Times Square e o Central Park. Por ora, a prefeitura está trabalhando com o governo do estado e espera aval para colocar o plano em prática.

Propostas à parte, a cidade de Nova York enfrenta o problema maior de uma desaceleração da vacina. Nesta sábado (15), 34 mil doses foram administradas a novaiorquinos segundo dados da perfeitura, número bem abaixo do pico de 115 mil ao dia no começo do mês passado. 39% dos habitantes já estão completamente imunizados, o que também significa que há bastante trabalho a fazer. O dilema, novamente, é atrair os desinteressados pela vacina: além dos postos nas estações – que se aproveitam de um momento de reabertura dos transportes públicos conforme a cidade espera volta ao normal – quem se vacina por lá tem direito a entradas gratuitas para jogos de baseball e museus.

Turistas brasileiros e de outras nacionalidades, claro, ficam de fora dos planos, já que os Estados Unidos segue de fronteiras fechadas para viajantes vindos de outros países – com exceção de trânsitos vistos como essenciais, como trabalho, ação humanitária e programas de educação.

Já Miami aposta em um caminho contrário. No último dia 10, a prefeitura local abriu posto de vacinação temporária dentro do Aeroporto Internacional de Miami. Atender turistas entrando na cidade não é a meta. Ao invés disso, a cidade espera imunizar habitantes que deixam Miami, além de funcionários em serviços de táxi, shuttles e dentro do próprio aeroporto. A iniciativa chegou ao fim no último dia 14.

Em abril, jornais internacionais chegaram a reportar que a vacina Sputnik V seria chave para a retomada do turismo na Rússia em julho. Quem pousasse no país, diziam rumores, teria direito a uma dose do imunizante. Nada disso foi confirmado pelo governo russo, mas a incerteza não impediu que uma agência de viagens norueguesa passasse a oferecer pacotes de viagens que incluem a imunização como chamariz. Opções incluem duas viagens em um mês para a Rússia, com uma vacinação em cada escapada (o pacote sai por €1.199). Outra opção mais luxuosa, por 2.999 euros, inclui estada de 22 dias em um resort de luxo russo: o viajtante toma uma dose na ida, outra na volta.

O debate a respeito do turismo vacinal ainda está em andamento em muitos lugares do mundo, mas a preocupação é que ofertas de vacina para viajantes possa alargar a já existente desigualdade na imunização ao redor do mundo. “Ainda existe um desbalanço chocante na distribuição global de vacinas”, alertou Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), durante coletiva de imprensa na semana passada. “Em média, considerando países ricos, quase uma entre quatro pessoas receberam a vacina da covid-19. Em nações pobres, estamos falando de uma em mais de 500”, conclui.

Desigualdade que não para só na administração de imunizantes. Com uma nova abertura programada para mês que vem, a Europa decidiu permitir o trânsito de viajantes que não se vacinaram: o chamado ‘certificado verde’, documento que será obrigatório para viajar pelo continente, pode ser emitido tanto por quem já tomou o imunizante quanto por pessoas que tenham testado negativo para a doença ou possam comprovar que já contraíram a doença e se recuperaram. O certificado busca ser uma alternativa ao ‘passaporte de imunidade’, criticado pela OMS como discriminatória visto o avanço desigual das vacinas pelo mundo – mas cada país pode definir regras específicas de entrada.

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